Recentemente vi a gravação de um filme australiano: "The Rabbit Proof Fence", baseado num caso real de aculturação forçada das crianças aborígenes mestiças, prática que perdurou naquele país por mais de 40 anos, até 1970.
Um método que, pelo menos, também existiu nos EUA, em particular em Oklahoma, depois da deslocação forçada dos ameríndios para os, então, "Territórios Indianos".
Dados mais recentes, de 2011, apontavam que esta prática tinha atingido cerca de 700 crianças, só no Estado de Dakota do Sul, violando as actuais leis federais.
Na realidade, este método foi uma forma de - sob a capa de fazer aceder à "superior cultura branca" quem tinha parte de sangue branco, mas nascido no seio tribal - dotar, na prática, de escravos as famílias brancas e nação só as das classes dominantes.
Estas crianças arrancadas ao seio das suas famílias e criadas em orfanatos, mais campos de concentração que outra coisa (aliás como aconteceu na Alemanha nazi e na Rússia soviética), deslocadas milhares de quilómetros do seu meio, da sua cultura, crenças, identidade, no mundo dos brancos tinham também limitados horizontes sociais e profissionais, não indo além de empregadas domésticas, cozinheiras, costureiras, as raparigas, e choferes, jardineiros, serventes, os rapazes; enfim, os mais baixos escalões profissionais, em regra rejeitados pelos brancos.
A desumanidade do método é surpreendente e mais surpreendente porque socialmente aceite como a melhor solução para estas infelizes crianças que, na Austrália, constituíram a "Geração Perdida". Aceite mesmo por mulheres e mães, todavia insensíveis ao sentido de maternidade, ao sofrimento causado nos filhos e mães, acreditando que estavam a fazer o melhor para eles…
Todavia, por muito desumano que nos pareça aos olhos de hoje, temos de olhar para este fenómeno social no contexto de então e, sem desculpabilizar nem menosprezar o que de odioso o sistema teve, lançar a questão: o que fazemos hoje, que nos parece bom, justo e eticamente aceite e que será visto com um esgar de horror daqui a uns 100 anos?

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