É um campo aberto, no norte da cidade, de suaves colinas e algumas árvores. Calmo, quase idílico. Mas olhando com mais atenção, aqui e ali, as reminiscências do que foram, outrora, casas: uns degraus de cimento de uma entrada, um assentamento de uma construção, um murete, meio-comido pelas raízes de uma árvore...
São testemunhas silenciosas de um dia de terror quando uma parte da comunidade euro-americana de Tulsa invadiu o bairro de Greenwood onde vivia - por políticas estaduais de segregação racial - a população afro-americana (aliás, em tudo um regime semelhante ao do apartheid na África do Sul), destruindo o bairro, saqueando e queimando as casas, matando e ferindo as pessoas.
Este dia de terror racista ocorreu de 31 de Maio para 1 de Junho de 1921.
Porque, objectivamente isto aconteceu?
Porque um alegado ataque a uma rapariga gerou consequências destas proporções?
As suas causas reais nunca foram totalmente estabelecidas, embora a causa próxima tenha sido uma, nunca provada, tentativa de violação de uma rapariga branca por um rapaz negro, num elevador de um prédio da cidade.
No entanto, as políticas de segregação racial, então seguidas por uma população maioritariamente oriunda dos ex-Estados Confederados, o crescimento da tensão entre trabalhadores euro e afro-americanos, devido às consequências da desmobilização da I Grande Guerra (onde muitos postos de trabalho dos jovens que partiram a combater tinham sido preenchidos pelos negros) e finalmente a prosperidade da comunidade negra, nessa altura a mais próspera dos Estados Unidos, de tal modo que a sua zona comercial era conhecida pela "Black Wall Street", podem ser, em conjunto, o caldeirão onde fervilhou esta razia racista.
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| Algumas das lojas reconstruídas na "Black Wall Street" |
Houve medos de parte a parte, houve provocações, houve troca de tiros e houve mortos. Nunca se sabe ao certo quantas pessoas, sobretudo afro-americanos, morreram, nas 16 horas que durou o assalto. Dados da Cruz Vermelha Americana estimavam em 300 mortos e 800 feridos. No entanto, testemunhas apontavam que teriam sido milhares de mortos e que houve muitos enterros sem registo. Quanto a estes 800 feridos, assistidos hospitalarmente, era na sua maioria brancos, já que o hospital que servia a zona negra segregada fora destruído, pelo que a grande maioria, senão a totalidade dos negros feridos não tiveram tratamento.
Ao certo sabe-se que cerca de 6.000 moradores de Greenwood foram colocados em três centros de detenção da cidade, houve 10.000 desabrigados, contando crianças, mulheres e idosos e que foram destruídas pelo fogo 1.256 residências e saqueadas mais 251, que não chegaram a ser queimadas. Entre a destruição contou-se ainda 191 lojas, uma escola secundária, várias igrejas e o único hospital do distrito.
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| A única igreja da época, que sobreviveu ao ataque |
Estima-se que os prejuízos, entre imobiliário e bens pessoais, tenha ultrapassado os dois milhões de dólares.
A rapariga que se supunha vítima da tentativa de violação nunca apresentou queixa, mesmo depois de falar com a polícia e o suspeito, que esteve detido pelas autoridades, viu retirada todas as acusações, tendo saído de Tulsa para não mais voltar.
Sejam quais tenham sido as razões de toda esta loucura colectiva, assente no racismo, desse esse longínquo dia de 1921, numa mais se edificou nas 35 quadras de Greenwood, que agora se abrem à minha frente, em suaves colinas iluminadas gloriosamente pelo sol deste final de tarde outonal.
Parafraseando Dráusio Varela: O que se passou naquele dia, só Deus, as vítimas e os atacantes sabem. E eu só li o que os jornalistas e historiadores escreveram…





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