Aeroporto de Lisboa. 5h00. Madrugada de Outono, noite fechada ainda. Chego ao aeroporto. A viagem está começando. Com ela, um limpar de alma.
Gosto dos aeroportos. Locais de passagem, de encontros, desencontros, reencontros. Gosto do seu bulício, do vozear das pessoas. Gosto de ver os rostos, da alegria do reencontro, à tristeza da partida. Dos abraços dos apaixonados, do cansaço de quem espera. Um pouco de tudo, condensado num único espaço. Emoções contrárias juntas num único tempo. Histórias em simultâneo. Universo.
Os aeroportos são como os mercados das cidades, locais de um permanente carnaval, colorido e vivo…
Aeroporto de Frankfurt. Cerca do meio-dia. Chegado da primeira etapa, iniciar a segunda. Entretanto, já as memórias….
Carlos é angolano. Vive há 20 anos na Alemanha. Actualmente é operador num ferry-boat em Bona. De Frankfurt a Bona tomará um comboio rápido para ainda duas horas mais de viajem. Veio por 15 dias a Portugal, "carregar forças", e ver o seu pai e irmã. Como bom africano, todo ele é uma força da natureza, carrega em si uma energia invejável. Com graça, louva o choco assado enorme que comeu num restaurante para as bandas da Estrada da Buraca. Fotografou-o e mostra. Talvez na Alemanha seja isto que mais lhe falta: os prazeres de um bom fruto do mar e o convívio à volta da mesa…
Sexta-feita já estará de novo no seu ferry, na labuta diária. "Gosto muito do meu trabalho. O pior é no Inverno. Mas no Verão é uma beleza!…."
Os olhos castanhos, gaiatos, a figura algo roliça escondem uma determinação férrea. Nos seus 20 e poucos anos, Kenya, filha de moçambicana e de venezuelano, trabalha em Lisboa e sonha vive nas Picoas. "Rebelde sem causa", como gosta de se auto-definir, escolheu seus caminhos, seu viver próprio, deixando para trás as mordomias de família acomodada. Agora regressa a Venezuela, por uns dias, por causa da mãe doente. Momentaneamente doente. Vai dar-lhe apoio moral.
Conta as estórias da sua Venezuela, fala dos seus sonhos. Mostra as fotos, partilha experiências apesar de sua juventude. É outra força da natureza, acrescida do "descaramento" próprio da idade. Fácil de se gostar dela.
Carlos e Kenya, um de cada lado, no avião, foram maravilhosos companheiros de viagem. Kenia continuará comigo, ainda até Washington. Aí nossos destinos separar-se-ão: ela para Miami e depois Caracas, a cidade da eterna Primavera, eu para Tulsa, o mundo cowboy…
Em complemento aos aeroportos, estas viagens, assim pela riqueza do universo humano, encantam-me: quando as pessoas saem de suas muralhas individualistas para falarem, partilharem, rirem juntas…
Depois da pausa, não tão grande, entre os dois voos, em Frankfurt, embarcamos no grande Boieng 747. E lembrei-me de meus tempos de menino e moço, ao ver riscar os céus alentejanos o único destes aviões que Portugal teve, nos idos dos anos 70. Nessa altura, longe de mim adolescente, sonhar que um dia andaria num…
No aviso, eu e Kenia ficámos em lugares diferentes. Quando passo pelo lugar dela, já a rapariga está em animada conversa com uma brasileira, uma portuguesa, uma colombiana… Feliz gente esta que do nada faz uma festa, na alegria de viver. Algo que faz falta a nós, europeus…
Avião, 20h00 (hora Washington D.C.). Violentamente comprida se torna a última parte da viagem. Na realidade já são mas de 20 horas de viagem. Certo que partes da viagem passando pelo sono, mas, ainda assim, já moído o corpo…
Para trás, já ficou a separação da companheira de viagem, Kenia. No troço sobre o Atlântico, tocou-me por companheiro de viagem um tunisino, a residir em Washington. Falar com ele, foi o matar de saudades de um país lindo, de gente amável, que conheci há mais de um quarto de século. Falámos do Islão, da Primavera Árabe e dos vários rumos que a alegada abertura social trouxe aos países magrebinos. E reflexões sobre a liberdade e a falta dela…











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